Tudo começou com os gatos. Havia uma tensão elétrica no ar que apenas eles pareciam captar. Rondavam a casa com aquela agitação nervosa, os olhos fixos em cantos vazios, como se vigiassem algo que não pertencia a este mundo. Como o ambiente me parecia normal, ignorei o instinto deles e me rendi ao cansaço. Fui dormir.
O sono veio pesado e trouxe consigo um pesadelo do qual minha mente, num ato desesperado de autopreservação, apagou todos os detalhes. Acordei subitamente, ou pelo menos achei que tivesse acordado. A escuridão do quarto pesava sobre mim, e logo percebi a armadilha: eu estava preso no meu próprio corpo. A paralisia do sono me dominava, acompanhada por um formigamento contínuo e angustiante que percorria meus nervos como uma corrente elétrica de baixa voltagem.
Lutando contra o peso invisível que esmagava meu peito, tentei desesperadamente mover meus lábios para falar com minha esposa ao meu lado. Queria tranquilizá-la, e a mim mesmo: “Calma, está tudo bem. Foi só um sonho.” No entanto, à medida que a névoa letárgica do sono começava a se dissipar, a realidade ao meu redor se distorceu em algo muito pior do que qualquer pesadelo esquecido. O som que preenchia o quarto não era o do meu alívio. Era o choro dela.
Ela soluçava de forma convulsiva, um choro carregado de um terror primitivo. E então, entre o pranto, ela gritou com uma voz que mal parecia a sua, um aviso desesperado e gutural:
— Você vai acordar Ele! (Ou seria Ela? A palavra saiu borrada, indistinguível, mas a ameaça era clara, vasta e inominável).
O ar no quarto congelou. Antes que eu pudesse sequer tentar entender do que ela estava falando, a presença se manifestou. Bem ali, no limite do meu travesseiro, senti algo encostar no topo da minha cabeça. Um toque físico, frio, deliberado e terrivelmente real. O terror foi tão absoluto que quebrou a realidade.
Com um solavanco violento, meus olhos se abriram. Dessa vez, de verdade.
O teto familiar do meu quarto estava lá. O silêncio normal da madrugada havia retornado. O formigamento amaldiçoado ainda formigava sob a minha pele, e a paralisia ainda me mantinha prisioneiro na cama, um eco físico do inferno por onde eu havia acabado de transitar. Mas o desespero foi lentamente dando lugar ao alívio. Eu estava no meu quarto. Estava seguro.
Mas a dúvida persistia no escuro: o que, afinal, os gatos estavam olhando antes de eu dormir?